Telejornais, ontem (ou Notícias do mundo antigo)

Comentei aqui anteriormente um texto do Observatório da Imprensa que defendia a importância de se ter acesso aos arquivos de telejornais.

Para ilustrar essa importância, selecionei alguns dos vídeos que postei no meu canal do YouTube, e que reúnem momentos importantes da nossa história.

O primeiro é um especial da Rede Manchete intitulado Aconteceu em 87, levado ao ar em fins de dezembro daquele ano, em formato semelhante ao das retrospectivas jornalísticas de outras emissoras.:

Aqui, trechos do especial Aconteceu Internacional 88:

1992 é um ano crucial naquilo que se chamou Nova República, nome e momento da história tão ficcionais quanto uma novela das oito… Aliás, está aí um bom título para uma farsa no estilo das que foram apresentadas no horário nobre nesse período.

Pois bem, 1992 era o ano da merda, minha gente (e o minha gente aqui, vocativo preferido de Collor, é mais uma chave pra entrar no clima da época). A Globo assumiu tanto essa ideia que a merda chegou, literalmente, nas novelas: na abertura de Deus nos Acuda, uma lama negra começava em talões de cheque e envolvia até o pescoço os convidados de uma festa chique, que nela nadavam como se nada houvesse. No fim, lama, dinheiro, carros, iates e helicópteros escoavam por um ralo que formava o desenho do mapa do Brasil:

A novela de Sílvio de Abreu, no entanto, concentrava sua crítica no título e na emblemática abertura. Mas é, evidentemente, um símbolo de como a crise política daqueles anos marcou as produções televisivas.

Pra se entender como a mídia viu toda essa crise que culminou no impeachment do presidente Collor, nada melhor que vasculhar os jornais. No vídeo a seguir, há trechos de diversos telejornais, gravados no momento de finalização do relatório da CPI do caso PC Farias e às vésperas do pedido de impeachment. Dá pra se ter uma ideia do que se vivia na época e de como a imprensa se colocou diante do caso. Como o vídeo é longo, destaco alguns momentos mais interessantes:

  • Trechos do TJ Brasil com a Marcha da juventude pelo impeachment; o desvio de dinheiro da secretária de Rosane Collor para a LBA (Legião Brasileira de Assistência); presença de vírus nos computadores à época da finalização do relatório da CPI de PC Farias e, por fim, uma matéria ótima sobre um protesto de moradores de Alphaville contra Collor.
    O telejornal apresentado por Boris Casoy no SBT inovou ao trazer a figura do âncora que comenta as matérias. Uma novidade para a época e que hoje parece dominar o jornalismo, cada vez mais recheado de impressões…
  • Trecho do Jornal da Manchete com comentário de Carlos Chagas sobre relatório final da CPI de PC Farias e pedido de impeachment a ser assinado primeiro por Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa); matéria de Luiz Carlos Azenha sobre como o escândalo Collor fora comentado num editorial do New York Times.
    Como já comentei aqui, o telejornalismo foi um dos pontos fortes numa época da emissora de Adolpho Bloch. A qualidade fica evidente quando observamos os comentaristas (além de Chagas, Villas-Boas Corrêa também aparece num trecho).
  • Um fato engraçado: num dos comerciais preservados na gravação há um trecho da campanha política de Paulo Maluf e da campanha de Eduardo Suplicy para prefeito. Nesta última, aparecem os atores John Herbert e Giuseppe Oristânio como apoiadores.

Pra finalizar ainda em 1992, dois trechos da retrospectiva Aconteceu 92, da Manchete.


+ MAIS +

Enquanto escrevo este post, leio texto muito bacana de Elizabeth Carvalho sobre o telejornalismo da década de 1970: “Telejornalismo, a década da tranquilidade”. Foi publicado inicialmente na coletânea Anos 70: Televisão, lançada em 1980. Todos os textos desse livrinho foram relançados pela editora Aeroplano e Senac-Rio com o título de Anos 70: ainda sob a tempestade, organizada por Adauto Novaes. Leitura recomendada!
Outro texto interessante (que, por sinal, cita o texto de Elizabeth) saiu no Observatório da Imprensa: “A memória embotada do telejornalismo brasileiro”, de Sebastião Carlos Squirra.

Falação em outras praias

Convido a todos a lerem duas colaborações recentes minhas.

Uma delas, pro site Culture-se, sobre o boxe da novela Dancin’ Days:
“Retrato de época: Dancin’ Days fala de moda, música e noite”.

Sônia Braga e Paulette em cena de Dancin’ Days

Outra, no blog Eu prefiro melão, sobre a obra de Lauro César Muniz:
“Louros para Lauro”.

Lauro, senhor das ousadias nas telenovelas

Visitem, comentem.

Quando a memória está trancada…

Entre um post e outro desse blog de reflexões incipientes, havia mencionado sobre a necessidade de termos acesso à TV do passado. Não defendo esse acesso como forma de entretenimento ou de matar uma curiosidade apenas (o que também é perfeitamente válido), mas como instrumento, como fonte para um olhar historiográfico. De fato, nosso material televisivo é pra gerar anos e anos de estudos. Mas, cadê acesso a ele?

Tempos atrás tive a experiência de entrar em contato com o Globo Universidade. Como qualquer acervo, ele possui regras e nem todo material está disponível para consulta. Para se ter acesso, é necessário submeter um resumo de sua pesquisa, além de todas as informações acadêmicas bur(r)ocráticas. Seu pedido pode ser aceito ou negado.

O procedimento é comum em muitos arquivos — afinal, e se todo noveleiro pentelho quisesse pesquisar a cena em que cai o lenço da mocinha no capítulo 36, como fazer? Prioridades e convenções são criadas. Ocorre que, com uma predefinição, perde-se aquele primeiro encanto do pesquisador pelo seu objeto: ficamos sem a paquera, sem o namoro das fontes. Como em toda relação, o namoro é importante — o relacionamento sério não começa do nada. Dito de outro modo, esses procedimentos de acesso a acervos (televisivos ou não) limitam a forma de estudar um assunto: o material acaba sendo usado não tanto como fonte, mas como prova (“como queríamos provar, a telenovela desse período evidencia um discurso enviesado do cenário político, e blá blá blá”). A pesquisa não é processo, mas coisa pronta à cata de subsídios que comprovem uma ideia. Signos da pesquisa em tempos em que se fala em “produtividade”, “alimentar curriculo Lattes” etc.

Mas, ainda com todas essas regras, devo dizer que o Globo Universidade é das coisas mais organizadas que temos. Pensemos no que acontece, por exemplo, com um material riquíssimo como o da extinta Rede Manchete, que deve se deteriorar por aí. Continue lendo

Sob o signo de Ismael Fernandes

Neste 2012 se comemoram os 30 anos de uma obra clássica: Memória da Telenovela Brasileira, de Ismael Fernandes. À primeira vista, pode até ser que esses dois nomes não digam lá muita coisa, mas estou certo de que muito do que se sabe sobre algumas novelas se deve a esse livro. Os noveleiros de plantão devem tudo e mais um pouco a esse trabalho de Ismael — e já se depararam com inúmeros trechos e informações extraídos dessa obra nos mais diversos sites (até aqueles considerados sérios e de referência costumam copiar longos trechos sem dar qualquer referência ao livro).

Jornalista e pesquisador dedicado, ele foi profundo conhecedor da telenovela brasileira e um pioneiro ao estudar um gênero que, apesar de constituir toda a força da indústria cultural e de entretenimento no país, nunca havia sido olhado com seriedade.

Capa da quarta edição de "Memória da Telenovela Brasileira", de Ismael Fernandes

Capa da quarta edição de Memória da Telenovela Brasileira

Obra documental, com jeito de enciclopédia, Memória da Telenovela Brasileira organiza em ordem cronológica todas as novelas e minisséries apresentadas desde a década de 1960, indicando ficha técnica com os nomes dos atores, diretores, autores; período e horário em que foi apresentada a produção. A uma pequena sinopse, seguem-se algumas curiosidades, incidentes, pequenas críticas e elogios. Curioso é que essa estrutura da obra reflete a forma como se fala da telenovela até hoje (época marcada por um novo enciclopedismo): o foco é sempre a história e os realizadores; a recepção, os diversos sentidos das obras na sociedade vão ficando pra acadêmico estudar…

Lançado pela editora Brasiliense em março de 1982, o livro teve sua segunda edição em 1987, com prefácio de Walter George Durst que é um texto muito interessante pra quem se interessa pelas relações entre ficção e história. Nele, o novelista descreve brevemente a programação do horário nobre no dia em que a Rede Globo levava ao ar o último capítulo de Roda de Fogo — mas não sem antes exibir o horário eleitoral gratuito, com a propaganda partidária do Partido dos Trabalhadores. Durst critica a ladainha doutrinária da oposição esquerdista, mas vislumbra naquele formato da propaganda política do PT que “em toda a história do país, muito poucos terão sido os momentos de perplexidade tão generalizada como os que a maior parte da população hoje atravessa”. Sim, estamos falando de Sarney, inflação e planos econômicos desastrosos. O ponto mais interessante do texto de Durst, porém, é aquele a que depois sempre se voltou quando o assunto é a relação entre ficção e história: segundo o autor, o povo que viu o programa do PT não teve a mesma sensação que ao ver o capítulo da novela:

“… o que cada um sentiu de ‘real’ diante dos dois programas terá registrado uma vantagem além de qualquer proporção para o capítulo da novela. Os problemas imaginários do elegante protagonista tornaram-se incomparavelmente mais prementes do que os dos próprios telespectadores”.

E Durst está falando de um momento anterior às maiores confusões entre realidade e ficção que o país viveria. Perplexidades outras viriam depois, como, por exemplo, nas eleições de 1989, ou quando da morte de Daniella Perez em 1992, ou na proibição da minissérie O Marajá, da Manchete, em 1993, nas discussões sobre reforma agrária à época de O Rei do Gado em 1995…

Essa relação entre a história, ou a “realidade”, e a teledramaturgia é a responsável, na verdade, pela singularidade da novela brasileira. E o livro de Ismael, ao evidenciar uma linha evolutiva desse gênero, facilita enxergar bem esse salto — que se dá no fim dos anos 1960 e ganha força nos anos 1970, de modo que nos 1980 o que vemos é, guardados uns respiros aqui e ali, o ritmo industrial das produções, o domínio da forma vencendo o conteúdo. Nesse olhar retrospectivo dá até para se pensar que o Brasil foi bem mais ficcional que real naqueles anos 1980.

Aliás, foi naqueles anos que Ismael passou pela experiência de escrever telenovela. Depois do sucesso do livro ele foi convidado a escrever para a TVS (isto é: SBT), onde estreou em 1984 com o dramalhão Meus Filhos, Minha Vida, com Miriam Pires encabeçando o elenco — que tinha até a pornochancheira Helena Ramos fazendo par com Dênis Derkian! A novela voltaria em remake dos anos 1990 com o título Razão de Viver. Na mesma emissora, Ismael ainda faria Uma Esperança no Ar (1985-86) e adaptaria a segunda versão de As Pupilas do Senhor Reitor nos anos 1990.

Lembro bem de algumas participações de Ismael comentando novelas no Mulheres da TV Gazeta, numa época boa em que o programa tinha até quadro de Xênia Bier. Ele se orgulhava de sua obra e da forma como ela estava estruturada: Eu não dou interpretações, mas registro se a novela foi bem ou não”, disse em entrevista ao jornal O Globo por ocasião do lançamento da terceira edição do seu manual em junho de 1994. Na mesma matéria, Ismael elencava os folhetins que considerava mais bem-sucedidos (Vale Tudo, Pantanal, Que rei sou eu?, Vamp, Barriga de Aluguel) e os que fracassaram (Brasileiras e Brasileiros, Gente Fina, Amazônia). Interessante notar que todas essas estão localizadas na curva do fim dos anos 1980 e começos dos 1990, além de apresentarem índices de audiência que refletem a aceitação do folhetim pelo público.

Neste último dia 18, fez dezesseis anos que perdemos Ismael Fernandes, um mestre da memória da telenovela brasileira. Ele morreu sem ver o lançamento da quarta edição de sua obra (aquela edição super rara em sebos), que saiu ampliada e revista em 1997 graças ao auxílio de pesquisadores do Núcleo de Pesquisa de Telenovelas da Universidade de São Paulo. Estivesse vivo, ele defenderia a necessidade desses estudos e pesquisas, apesar de ele próprio não ter se aventurado pela análise detalhada da telenovela enquanto produto estético e cultural. Na apresentação da obra, ele escrevera:

“Minha intenção é apresentar um trabalho de pesquisa para que a partir dele se possa discutir e estudar todos os efeitos que emanam desse fantasioso gênero que se tornou nosso principal produto de cultura popular”.

Muitos anos, novelas, livros e teses depois desse comentário, analisar a telenovela em termos históricos e culturais ainda é crucial.

Continue lendo

“Nova classe C” não é juízo de valor!

Um espectro ronda a crítica de cultura atual: a “nova classe C”. Assim mesmo, “com aspas”. Enquanto a TV e a publicidade vão aprendendo a duras penas a lidar com as transformações sociais recentes, o conceito usado na seção de economia dos jornais migra para os cadernos de cultura como mero qualificativo. E diante da preguiça de analisar qualquer fenômeno, “nova classe C” passa a ser uma caixa onde tudo cabe — especialmente o clássico preconceito classista nacional.

Se qualquer mudança social implica conflito, no caso do Brasil, com uma certa disposição para evitar embates, esse conflito vai se delineando nos discursos perniciosos que pipocam aqui e ali. Assim, defensores do bom senso e do bom gosto agora usam a expressão para caracterizar tudo aquilo que, segundo eles, vai mal: se a novela é ruim, é porque foi direcionada à “nova classe C”; a trilha da novela é assim ou assado pra atingir a “nova classe C”. A expressão, óbvio, é tão vazia quanto o uso inconsciente da noção de “elite”. (Aliás, me admiro da falta de lugar de muitos críticos hoje: o autor parece querer sempre evitar essa discussão sobre o lugar de onde fala…). Pode-se pensar que isso não seria um problema e que os termos “burguês” e “elite” também foram se tornando comuns na crítica de cultura mais esquerdista, digamos. A diferença está no poder que a expressão “nova classe C” tem tido para descaracterizar e enfraquecer muita coisa que deveria ser vista hoje como um ganho e não como uma perda.

É bem verdade que não se pode cobrar precisão vocabular de quem não tem compromisso algum com as idéias que expõe por aí. Por outro lado, essa mesma despreocupação vai abrindo espaço para que visões preconceituosas se firmem. E é assim que a expressão “nova classe C” vai pouco a pouco deixando de ter um sentido num momento econômico-social bastante específico para adquirir conotação de juízo de valor.

A crítica (ou aquela atividade escrita regular que assim se intitula) e as gentes que escrevem sobre TV devem hoje estar mais do que atentos a suas abordagens. Tachada de elitista, nossa crítica de TV sempre se preocupou em julgar a qualidade do nosso produto televisivo — e por trás da defesa da “qualidade da programação” estavam muitas e esconsas ideologias. A trajetória crítica de Helena Silveira, por exemplo, é o que mais me faz pensar nisso: quem lê hoje suas colunas publicadas na década de 1970 vê que a crítica de TV sofre dos mesmos males, volta às mesmas reivindicações, às mesmas categorias de análise, estabelece o mesmo discurso elogioso a algumas figuras e desdenhoso a outros, etc. A ironia da história, neste caso, está no fato de hoje a década de 1970 ser considerada um grande momento da história da televisão justamente em termos de… qualidade!

Voltando pra essa segunda década dos anos 2000, fato é que a expressão “nova classe C” passou a ser conceito-valise. Na expressão se vê explicação para tudo que acontece (e pro que não acontece) em termos de cultura hoje. Por exemplo, a emergência de um discurso mais moralista e excessivamente didático no nosso cinema e nos diversos programas de TV têm uma história que mereceria uma boa reflexão. Mas, é mais fácil esquecê-la e analisar essa trajetória histórica em nome de uma expressão abrangente, claro.

Numa entrevista por ocasião do final da novela Corpo a Corpo, em 1985, Gilberto Braga disse que recebia pedidos dos telespectadores para que em suas novelas a realidade fosse mais glamourizada. Acho que hoje esse paradigma vai sendo transformado porque as formas de identificação com os produtos culturais também mudou. Nosso olhar cansado e viciado de tanta TV é que não tem mudado. Reafirmar velhos preconceitos nas entrelinhas de textos travestidos de “crítica” só prejudica mais a vista. Nosso olhar é educado dia a dia pela experiência de vida, mas é muito importante que ele também seja deseducado vez ou outra e que nos esforcemos para ver com olhos mais livres. Continue lendo

Onde estão os (novos) conflitos?

Aprendi num texto de Décio Pignatari do fim da década de 1970 que uma das formas de se ver novela é por amostragem. Gosto muito do termo e acho que ele se aplica bem à forma como se vê algumas novelas — e mais: expõe a própria estruturação do gênero, feito pra se alongar no tempo e permitir que seja visto mesmo a partir da metade.

Apesar de ver as novelas atuais por amostragem, uma coisa pra mim é certa: a novela brasileira vai ter de aprender a lidar com outros/novos conflitos. Com isso não estou falando em “crise do gênero” ou “fim da telenovela” — a realidade atual mostra o oposto: mais horários com ficção, avanço dos clichês melodramáticos no cinema brasileiro recente e no jornalismo, novos autores surgindo e trazendo um pouco de frescor pra alguns dos horários mais instituídos no cotidiano nacional.

A novela precisa do conflito. Ele é o instrumento para aquela aparência de verdade/realidade tão admirada dos nossos folhetins. O problema é quando o conflito é o mesmo. O conflito de classe, por exemplo, sempre foi o elemento mais importante. A ascensão social funcionou em muitas tramas ao mesmo tempo em que o imaginário nacional foi sendo povoado pelas ideias de que o dinheiro vem com o esforço e pra quem merece (o reino da meritocracia!), de que a ambição é um sentimento negativo (só cultivado pelas vilãs… porque heróis e heroínas praticam o desprendimento, têm — no máximo — desejos, aspirações muito dignas), de valorização da paixão e não do amor etc., etc. O que ocorre é que insistir em certos conflitos é desconsiderar que o público de hoje não se confunde com o telespectador ingênuo da década de 1970, admirado diante do televisor. E a novela ainda está perdida em como mostrar isso.

Duas tramas recentes explicitam bem esse clima: Fina Estampa e A Vida da Gente. A primeira delas ainda é retrato de um país em que classe social é designada por letra. A Griselda de Lília Cabral é a representante da propalada “nova classe C” (termo curinga em toda análise de cultura atualmente). E a maior prova de como a novela se colou à realidade é a imagem do encontro entre Dilma e essa representante na entrega do prêmio da revista IstoÉ Gente, ano passado. Isso vale mais que os índices de audiência que o autor gosta de publicar no seu perfil do Twitter.

Dilma e Griselda/Lília Cabral: sintonia entre novela e política?

Em Fina Estampa ainda predomina essa clássica distinção que fez parte da história do nosso folhetim. A diferença de classe ainda se mostra fundamental ao desenrolar da trama: no começo, o conflito foi entre mãe e filho; depois, passou a ser entre Griselda e Tereza Cristina, pra se centrar no medo desta última de ter descoberta sua origem “popular”. Se a personagem histérica de La Torloni tende ao riso, a de Lilia Cabral tende mesmo às chatices do politicamente correto da nossa época (cada vez mais correto, cada vez menos político, eu diria).

Continue lendo

A tevê que a gente revê

Começo com uma afirmação meio óbvia, mas necessária: Nunca em outro tempo se reviu tanta TV. Parece que estamos vivendo o momento de constatação de um passado desse veículo que sempre foi marcado pelo imediatismo.

Por um lado, isso se deve a uma onda de nostalgia e saudosismo que invade nosso imaginário e nossa cultura (e que também é característica de inícios de século). O Woody Allen retratou bem esse momento no seu Meia-Noite em Paris. O filme é emblemático de um momento em que se pensa sobre um passado (e não tão distante assim, pra minha geração) recheado de “cultura material”, digamos assim. Em tempos de livros nas telas e em que o download dá lugar ao streaming, temos uma nova noção dos produtos culturais. E o filme do Allen fala bem de uma criatura desses tempos: os novos românticos viciados em sebos, vinis, livros e qualquer coisa que tenha uma poeirazinha do tempo por cima.

Continue lendo